Alpha

Título original: Alpha

Direção: Julia Ducournau

Ano de lançamento: 2025

Data de estreia no Brasil: 04/06/2026

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 7/10

Depois de Grave (Raw, 2016) e Titane (2021), a diretora e roteirista Julia Ducournau reafirma em Alpha sua intenção de realizar um cinema que incomoda.

Alpha apresenta uma metáfora brutal sobre a AIDS. Embora essa sigla nunca seja mencionada, o filme trata de uma doença transmitida pelo sangue e que atinge principalmente usuários de drogas (o tio da protagonista) e homens gays (o professor de literatura). A personagem Alpha (Mélissa Boros), uma menina de 13 anos, pode ter se infectado quando foi tatuada sem a devida higienização enquanto estava drogada, ou bêbada, em uma festa.

A doença possui uma presença esmagadora na vida da mãe de Alpha, interpretada por Golshifteh Farahani. Além do irmão viciado em drogas Amin (Tahar Rahim), que sofre com esse mal incurável, e a suspeita de que a sua filha possa estar contaminada, ela combate a moléstia todos os dias, pois ela trabalha como médica em um hospital. A cena em que ela e a enfermeira (vivida por Emma Mackey) atendem a ala dos pacientes com a doença causa arrepios, pois se passa no início do filme, e é a primeira aparição na tela dos seus efeitos devastadores – e criativamente originais. O corpo dos doentes fica enrijecido como uma pedra, o que se torna ainda mais impressionante – quase insuportável de se olhar – posteriormente, quando a mãe retira uma amostra das costas endurecidas do tio de Alpha para biópsia.

Despertando o pior nas pessoas

O filme revela, também, o preconceito e o pânico que surgiram com a AIDS. O preconceito fica evidente no trecho em que um professor de literatura sofre zombarias de um aluno na sala de aula. E, alguns dias depois, o professor entra todo deprimido e começa a chorar, obviamente porque descobriu estar contaminado. A própria Alpha provoca desespero nos colegas naquela mesma aula, porque muito sangue escorre da tatuagem feita de qualquer jeito em seu braço. E o aflito se intensifica quando ela bate a cabeça na piscina no treino de natação e ela fica rodeada de seu sangue.

Outro tema relacionado vem à tona na parte final. Amin não aguenta mais sofrer a agonia de morrer aos poucos, sabendo que a doença é incurável. Por isso, tenta encurtar a sua vida, com a aquiescência da sobrinha. Porém, a sua irmã, mais por esse vínculo familiar do que por ser médica, impede que isso aconteça. Mesmo diante das implorações de Amin, ela não o deixa morrer. O filme não retrata essa insistência da irmã como um ato de amor. A sua intenção é revelar o quanto ela está sendo egoísta, mantendo o irmão vivo para ainda contar com a sua companhia e cuidar dele, ao invés de aliviá-lo das suas dores.

Incômodo

Julia Ducournau evita a todo custo que Alpha seja um filme triste. Por isso, nenhum dos três protagonistas é construído para conquistar a empatia do espectador. O público os vê sofrerem, mas sem sentir pena deles. A música quase sempre sombria, a fotografia escura, os cenários decrépitos, a maquiagem que enfeia e até deforma os personagens, enfim, tudo é pensado para afastar a compaixão. No lugar dela, o sentimento dominante é de incômodo, que brota da desesperança diante da doença incurável, das piores reações das pessoas que nos momentos extremos só pensam em si mesmas, da repugnância do body horror.

Ducournau ainda insere a perda da racionalidade diante dessa situação desesperadora. Alpha e o tio saem pelas ruas numa sequência de alucinação. Há um breve instante de alívio para o espectador, quando os dois se divertem em um campo de futebol, mas sem esconder que se trata de uma ilusão, pois em seguida entram num bar frequentado por pessoas doentes em estágio avançado.

Uma música pulsante de balada, durante uma circunstância de desespero de Alpha indica que a menina já perdeu a noção de como deve se sentir diante do que vê. “Sou jovem demais para isso”, reclama ela para a mãe que insiste em manter o irmão vivo. O próprio espectador já não aguenta mais tanta desgraça. Alpha é uma obra que consegue transmitir o desespero que massacra os seus personagens. Não é nada fácil de assistir, embora seja por isso mesmo um filme muito bem realizado.

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Ficha técnica:

Alpha | Alpha | 2025 | 122 minutos | França, Bélgica | Direção: Julia Ducournau | Roteiro: Julia Ducournau | Elenco: Tahar Rahim, Golshifteh Farahani, Mélissa Boros, Emma Mackey, Finnegan Oldfield, Louaî El Amrousy.

Distribuição: MUBI e O2 Play.

Trailer:

Onde assistir:
Mélissa Boros em "Alpha" (divulgação/MUBI)

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