Grave

Título original: Raw

Direção: Julia Ducournau

Ano de lançamento: 2016

Data de estreia no Brasil: 08/09/2017

Gênero: ,

Mais informações na ficha técnica abaixo do texto

Avaliação: 7/10

A roteirista e diretora francesa Julia Ducournau estreou em longas com Grave (Raw) em 2017, inaugurando o seu cinema autoral de horror que funciona como uma extensão do Novo Extremismo Francês. Seus dois filmes posteriores – Titane (2021) e Alpha (2025) – comprovam a consistência de seu trabalho.

Em Grave, a jovem Justine (Garance Marillier) começa a cursar a Faculdade de Veterinária, onde a sua irmã mais velha Alexia (Ella Rumpf) estuda. Recebida com os trotes dos veteranos, Justine se depara com um mundo muito mais selvagem e perigoso em relação ao qual estava habituada. Além das baladas regadas a bebidas, drogas e muita pegação, ela enfrenta um duro dilema quando a obrigam a comer um pedaço de fígado de coelho cru. O que é difícil para os demais calouros para ela representa algo traumático, por ser vegetariana.

Ao se submeter a essa provação, Justine sofre com alergias pelo corpo todo. E, posteriormente, surge uma fome incontrolável por carne. O body horror entra no filme e se torna cada vez mais intenso. O tom fica mais violento. Após um acidente, ela prova carne humana e se torna uma canibal faminta. Ao lado da irmã, as duas assumem a posição de caçadoras atrás de novas presas, com direito a detalhes lúgubres. Algumas passagens são dolorosas de se assistir, mas Julia Ducournau tem o bom senso de deixar certos trechos em elipse – como o final da cena no necrotério, mantida fora do quadro.

Metáforas

Através de todo esse gore e tom sombrio, o filme trata da sexualidade. O vegetarianismo de Justine, protegido pelos seus pais, representa a sua virgindade. A entrada na faculdade, onde passa a morar longe da família, coloca em risco a manutenção dessa condição. A festa aos calouros a assusta. Uma das brincadeiras a leva a provar o gosto da carne (o fígado cru), que simboliza algum ato sexual. Isso desperta o seu apetite e seu desejo por mais. A princípio, Justine a sacia sozinha (suas idas à geladeira de madrugada ou o ato de comer seu próprio cabelo), como acontece na masturbação.

Nesse jogo de metáforas, o fato de ela iniciar o canibalismo comendo o dedo da irmã pode levar à chocante interpretação de que elas tiveram uma relação sexual incestuosa. Posteriormente, as duas se unem para buscar novas vítimas (parceiros sexuais). Nisso, inclui-se outro detalhe arrebatador, que leva à necrofilia. Por fim, na cena final, o segredo vem à tona pela explicação do pai, que restringe a analogia da sexualidade àquela exclusivamente feminina. Desta forma, surge uma camada a mais nessa temática, revelando que Julia Ducournau pretende criticar a resistência da sociedade em relação à liberdade sexual das mulheres.

Grave indica o caminho que a cineasta escolheria para seus filmes: abordar temas sérios através do fantástico em sua forma mais perturbadora.

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Ficha técnica:

Grave | Raw | 2016 | 99 | França e Bélgica | Direção: Julia Ducournau | Roteiro: Julia Ducournau | Elenco: Garance Marillier, Ella Rumpf, Rabah Nait Oufella, Laurent Lucas, Joana Preiss, Bouli Lanners, Marion Vernoux, Thomas Mustin.

Onde assistir:
Garance Marillier em "Grave"

Outras críticas:

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