Fazer um filme com a intenção de levantar uma bandeira só rende uma obra de qualidade quando fortemente conectada com a inspiração artística. Caso contrário, o cinema fica em segundo plano. No caso do longa brasileiro Antártida, o problema parece pior, porque deixa a impressão de que o objetivo não é puramente a questão social ou política, mas a sua exploração como assunto em alta para atrair mais público.
O tema possui incontestável importância e urgência: a violência contra a mulher. Porém, o filme o trata com superficialidade e incorporando uma atitude precipitada, que acaba provocando um efeito revés que enfraquece a luta contra esse crime abominável.
A história se passa numa estação de pesquisa brasileira na Antártida. Em sua parada semestral, um navio chega do Brasil trazendo a cientista Inês (papel de Marina Ruy Barbosa) e o Capitão Vicente (vivido por Lázaro Ramos), que é o marido de Marina, a médica do local interpretada por Leandra Leal. A equipe da base conta também com o Comandante Barros (Antonio Calloni), a Subcomandante Elisabeth (Andrea Beltrão), e mais seis homens e uma mulher.
Na primeira noite, após uma festinha na estação, Inês sai para fumar, mas desmaia. Ao acordar, descobre que foi estuprada. A partir daí, todos os homens se tornam suspeitos do crime. Convenientemente, o comandante pede afastamento de seu cargo porque está com um câncer na cabeça. Assim, a subcomandante pode impor as regras da investigação – que só começa de forma oficial depois que ela obtém a evidência da câmera de segurança de que o estupro de fato aconteceu. Na verdade, essa confirmação já viera de Marina após a sua avaliação médica. Esse hiato para o processo formal de investigação é apenas uma das inconsistências do roteiro.
Trama furada
O enredo apresenta situações que surgem do nada. Os primeiros suspeitos de Elisabeth são o comandante (por quem ela sente tristeza depois que ele revela sua doença terminal) e o capitão Vicente. Contudo, ela não tinha nenhum motivo sólido para desconfiar deles. Posteriormente, todos descobrem que Vicente costuma agredir sua esposa Marina, mas isso não tem relação com o estupro e só indica que o roteiro virou receptáculo para todo tipo de violência contra mulher.
Durante a investigação, surgem pistas que são verdadeiras tolices. Como quando Inês desconfia de um colega simplesmente porque ele pediu um cigarro para ela. “Como ele sabe que eu fumo?”, pergunta-se ela, mas todos, inclusive o espectador, viu que ela saiu para fumar à noite depois da festa. Aliás, a afirmação de que ela estava muito bêbada não condiz com o que o filme mostra nesse trecho em que ela fuma fora da estação.
O que o espectador vê na tela também causa estranheza em outros momentos. Ora, não faz sentido que Elisabeth considere suspeitos os dois colegas velhos e baixinhos (entre eles, Gero Camilo), depois de ver a gravação da câmera de segurança que mostra dois rapazes magros e altos atacando Inês desacordada.
Mal realizado
A realização do filme também é insuficiente. As filmagens aconteceram em um estúdio virtual, e não na Antártida, ou em outro lugar extremamente gelado. Visualmente, a computação gráfica convence. Porém, a encenação quebra a credibilidade. Seria impossível as pessoas saírem da estação vestindo tão pouca roupa. E, ninguém sairia para fumar à noite. As condições climáticas severas foram mais bem caracterizadas no pequeno filme Terror na Antártida (Whiteout, 2009), de Dominic Sena, que também é um mistério sobre um crime numa estação de pesquisa nessa região.
O whodunit se desenrola dessa forma atropelada e sem lógica, certamente desagradando aos fãs do gênero que valorizam essa característica. A revelação não surpreende – na verdade, o público já não liga mais para o filme a essas alturas.
Antártida ainda apela desesperadamente para fisgar o espectador. Tenta emocionar numa cantoria em grupo em homenagem a um membro da equipe que morre, sem que o filme mostre qualquer motivo para ele receber esse louvor. Na parte final, quando o crime já está solucionado, entra um pouco de filme-catástrofe, mas isso praticamente não se materializa na tela. E, antes dos (desta vez tão aguardados) créditos finais, o enredo ainda se estica para criticar a impunidade nos crimes de violência contra a mulher. Não adianta, a mensagem chega atravessada e não atinge o espectador que foi atraído pelo grande elenco que a produção desperdiça.
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Ficha técnica:
Antártida | 2026 | Brasil | 93 min. | Direção: Bruno Safadi | Roteiro: Claudia Jouvin | Elenco: Andrea Beltrão, João Vitor Silva, Leandra Leal, Henrique Barreira, Marina Ruy Barbosa, Adelio Lima, Mariana Sena, Renan Monteiro, Antonio Calloni, Marcos de Andrade, Lázaro Ramos, Gero Camilo.
Distribuição: Paris Filmes.



