Casa de Dinamite traz a diretora Kathryn Bigelow de volta ao filme de guerra. O seu enredo supõe que o mundo corre o riso iminente de uma guerra nuclear. A sala de crise da Casa Branca, por isso, exibe um painel que indica o estado DEFCON-4, portanto, um nível abaixo da normalidade. Quando os instrumentos detectam um míssil se aproximando dos Estados Unidos, tendo como alvo a cidade de Chicago, os responsáveis precisam rapidamente decidir o que fazer.
A estrutura narrativa do filme se divide em três segmentos. Cada um na perspectiva de um personagem, numa escala progressiva de autoridade. Essa segmentação levou algumas pessoas a comentarem que Casa de Dinamite se assemelha a Rashomon (1950), porém, no filme de Akira Kurosawa, as perspectivas trazem versões diferentes dos fatos. No longa de Bigelow, as percepções são distintas, pois são pessoais, mas não contradizem o que está acontecendo.
As perspectivas de cada escalão
O primeiro segmento acompanha a Capitã Olivia Walker (Rebecca Ferguson). Primeiro, em casa, onde ela e o marido estão preocupados com o filho pequeno que está com febre. Em seguida, se concentra na sala de crise, quando ela e a equipe descobrem o míssil. Acontecem, então, as conversas com outras autoridades para discutir como agir. O capítulo se estende até o resultado da ação que decidem tomar de imediato, mas só vai até aí, porque o que acontece dali para a frente se restringe para escalões mais altos. Resta à capitã e aos seus pares telefonarem para as pessoas que amam. Com uma ótima atuação de Rebecca Ferguson, esse momento se torna o mais tocante do filme.
O segmento seguinte capta as ações e reações do Secretário de Defesa Reid Baker (Jared Harris, outro estupendo ator). O dia calmo no campo de golfe termina repentinamente, levando ao momento da teleconferência do capítulo anterior. Com problemas pessoais não resolvidos que o atormentam, Baker terá um desfecho trágico.
Por fim, o terceiro segmento se concentra no presidente dos Estados Unidos (Idris Elba). Ele, que aparecia nas reuniões em vídeo sob a sigla POTUS (President of The United States), sem imagem, é levado às pressas de uma apresentação numa escola para o helicóptero oficial. Ali, precisa decidir o futuro do seu país e do planeta. Caso opte pela retaliação, praticamente inicia a terceira guerra mundial. O final do filme é aberto, mas a cena final indica qual foi a sua decisão.
A direção de Bigelow
Kathryn Bigelow enfrenta o desafio de criar tensão em ambientes fechados onde não acontece ação física. Em nenhum momento, ela mostra o míssil voando em direção aos Estados Unidos, essa trajetória está apenas no painel de controle. Não acontece nem uma reunião presencial entre os personagens principais, pois ela se passa em videoconferência ou somente em áudio. E funciona, o nervosismo toma conta do espectador. Em parte, pelas ótimas atuações de todo o elenco, mas também pelo estilo de direção.
Bigelow encaixa seu costumeiro uso da câmera na mão e múltiplos planos curtos, que contribuem para criar a inquietação, principalmente no primeiro segmento, que acontece quase que exclusivamente em um só cenário. A câmera na mão não está exageradamente trêmula, o que evita que isso se torne maçante. Além disso, nos outros segmentos, que envolvem diferentes locações e cenários, permitem que a diretora recorra à câmera fixa, bem como a tomadas filmadas com gruas e drones. E, para contornar o emprego de siglas comuns a esse ambiente, incompreensíveis para o público médio (por exemplo, EKV, traduzido como Interceptador Exoatmosférico), elas aparecem decifradas na tela.
Mas, Casa de Dinamite corre o risco de soar uma sucessão de pessoas capacitadas em cargos importantes cumprindo o seu dever. Alguns trechos dão mesmo essa impressão, mas se sobressai o lado humano de cada pessoa. Nem todas conseguem manter o controle nessa situação extrema, e aquelas que conseguem precisam se esforçar muito para superar o seu nervosismo. Definitivamente, não é um material fácil de se filmar, mas Kathryn Bigelow, que não lançava um longa desde Detroit em Rebelião (2017), o transforma numa experiência repleta de tensão, como deveria ser.
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Ficha técnica:
Casa de Dinamite | A House of Dynamite | 2025 | 112 min. | EUA | Direção: Kathryn Bigelow | Roteiro: Noah Oppenheim | Elenco: Idris Elba, Rebecca Ferguson, Gabriel Basso, Jared Harris, Tracy Letts, Anthony Ramos, Moses Ingram, Jonah Hauer-King, Greta Lee, Jason Clarke, Malachi Beasley, Brian Tee, Brittany O’Grady, Gbenga Akinnagbe, Willa Fitzgerald, Renee Elise Goldsberry, Kyle Allen, Kaitlyn Dever.
Distribuição: Netflix.



