Diretor de filmes com temas densos como Cisne Negro (2010), Mãe! (2017) e A Baleia (2022), Darren Aronofsky surpreende ao lançar o divertido longa Ladrões. O gênero em que melhor se enquadra essa produção possui o termo “crime” em inglês, que não foi adotado por aqui. Portanto, se costuma substituir por classificações menos apropriadas como policial e suspense (ou thriller, este sim já incorporado em nosso meio). Então, não se restrinja ao gênero para tentar ter uma ideia do que esperar deste lançamento.
Baseado no livro de Charlie Huston (roteirista do filme), Ladrões mistura ação frenética, violência generalizada, policiais, gangsters, traficantes, drama psicológico, romance, comédia, enfim, ingredientes diversos para apetecer o público em geral. Até um gatinho fofo tem lugar no filme. Como se pode perceber, Aronofsky revela aqui um lado mais comercial e descontraído, que parecia não caber em seu cinema.
O filme se passa em 1998, em Nova York, onde Aronofsky nasceu. Hank Thompson (Austin Butler) trabalha num bar lutando contra o trauma pelo acidente automobilístico que matou o seu amigo e, o que mais o afeta, arruinou a sua promissora carreira de jogador de beisebol quando estava no fim do ensino médio, em uma cidade pequena na Califórnia. Como legado daquele período, ele continua um torcedor fanático do Giants, não dirige mais e faz questão de que todos usem o cinto de segurança.
Inocentes e bandidos
O enredo segue a linha do inocente que, sem querer, se envolve com criminosos perigosos. Isso acontece com Hank quando ele aceita cuidar do gato do skinhead Russ (Matt Smith), o vizinho que viaja para Londres para visitar o pai doente. Não demora muito para dois gangsters russos aparecerem e espancarem Hank, exigindo informações que ele desconhece. A violência, então, vai escalando e colocando em risco Hank e as pessoas que ele ama: sua namorada Yvonne (Zoë Kravitz), seu amigo Paul (Griffin Dunne) e sua mãe. Nem o gato é poupado.
O tom visceral se equipara aos mais sangrentos filmes de máfia. Mas, Ladrões não se restringe a isso. Os personagens secundários (com exceção de Yvonne e os russos) possuem mais de uma dimensão. Assim, integram um jogo de disfarces, no qual as aparências enganam. Por exemplo, a dupla de senhores judeus e a prestativa detetive Roman (Regina King) se revelam brutais quando entram em ação.
Já o protagonista Hank demonstra consistência nos efeitos do trauma que o atormenta e na sua mudança após os eventos da trama, ilustrada ao desligar a TV que transmite o jogo do Giants. No caso dele, só não dá para engolir o fato de ele, de repente, se tornar bom de briga (uma licença poética usada à exaustão no cinema).
O filme pop de Darren Aronofsky
Esses personagens com fachada enganosa fazem parte do humor farsesco que se contrapõe à violência desenfreada do filme. Nessa proposta, surge a sequência de perseguição dos dois judeus correndo atrás de Hank pelas ruas e pelos estabelecimentos de Nova York, que soa mais divertida do que tensa. A direção nesse trecho é primorosa, assim como as tomadas aéreas que se afastam do campo de beisebol ou que se movem entre os prédios, no início. A forma como entra o primeiro flashback também surpreende, e acontece imediatamente depois que Hank desmaia após ser surrado, ao som de “Rock You Like a Hurricane” do Scorpions.
Além disso, Aronofsky inclui inusitadas brincadeirinhas que pareciam não caber em seus filmes. Muitas delas envolvem o gatinho (sua piscadela sincronizada com o som durante a cena de sexo entre Hank e Yvonne, ou sua aparição após os créditos principais no final). Nos créditos, aliás, há uma grande surpresa em relação à mãe do protagonista – um aceno adicional para agradar o grande público.
Diversão descontraída, longe de provocar reflexões profundas, Ladrões é o filme pop de Darren Aronofsky. Seus próximos lançamentos indicarão se se trata de uma guinada na sua carreira ou apenas uma diversificação.
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Ficha técnica:
Ladrões | Caught Stealing | 2025 | EUA | Direção: Darren Aronofsky | Roteiro: Charlie Huston | Elenco: Austin Butler, Zoë Kravitz, Matt Smith, Regina King, Liev Schreiber, Vincent D’Onofrio, Griffin Dunne, Benito A. Martínez Ocasio, Carol Kane.
Distribuição: Sony Pictures.



