Depois de revelar as origens do Facebook de Mark Zuckerberg em A Rede Social (2010), dirigido por David Fincher, o roteirista Aaron Sorkin assume também a direção para atualizar a história em O Outro Lado das Redes (2026). Em suma, ele mostra que o que era antes uma possibilidade perigosa se concretizou.
O ator Jesse Eisenberg foi a escolha acertada para encarnar o Zuckerberg da criação do Facebook: um jovem que não sente empatia pelas pessoas e que, ironicamente, constrói a maior rede social do mundo. Mas, que, naquele momento, ainda não tinha consciência dessa sua patologia. O novo filme se passa em 2019, quando o Facebook soma 2,8 bilhões de usuários e é avaliado em 3 bilhões de dólares. Desta vez, Jeremy Strong interpreta Zuckerberg, um nome ligado a muitos personagens detestáveis que ele fez no cinema, como Roy Cohn em O Aprendiz (2024).
Zuckerberg aparece pouco no longa, seguindo um tempo e uma cronologia diferentes em relação à trama principal. Ao longo do filme, inserções diversas mostram o fundador do Facebook sendo preparado para responder perante uma audiência no Senado dos Estados Unidos. Há anos um bilionário, ele já perdeu toda a capacidade de se importar com as pessoas. Visando aos ganhos financeiros, ele sabe que os algoritmos — que talvez sejam a principal causa da polarização extremista que aterroriza o mundo nos últimos anos — significam apenas um meio para aumentar o engajamento e a quantidade de usuários.
Investigação jornalística
O Outro Lado das Redes se inicia com um exemplo desse comportamento extremista. Vemos uma garota branca em seu carro parado no acostamento à noite. Quando dois policiais negros, um homem e uma mulher, a abordam e desconfiam que ela está embriagada, ela usa a lei para se proteger. Mas vai além e desafia a policial enquanto a filma com seu celular.
Vamos, então, aos protagonistas. Jeff Horwitz, vivido por Jeremy Allen White, um respeitado repórter investigativo do Wall Street Journal, recebe a responsabilidade de escrever uma matéria sobre essa terrível prática do Facebook. Um detalhe engraçado contribui para tornar esse personagem mais interessante: ele é um “zero à esquerda” em informática.
Nesse quesito, o oposto dele é a especialista em computação Frances Haugen (em interpretação formidável de Mikey Madison). Ela trabalha no setor de Integridade Cívica no Facebook, departamento responsável por monitorar riscos relacionados a eleições, desinformação e fake news. Ao descobrir o problema dos algoritmos tendenciosos a grupos de ódio, ela tenta alertar as instâncias superiores, mas é censurada.
A convergência de interesses une Horwitz e Frances. A trama acompanha o gradativo trabalho de convencimento que o jornalista precisa trqabalhar para que a engenheira da computação se arrisque a divulgar documentos internos da empresa. A ousadia, afinal, pode significar a ruína de sua carreira. Esse processo é o que dá molho a essa história dura de investigação.
Códigos de ódio e a consagração dramática de Mikey Madison
Para provar que o Facebook contém códigos em seus algoritmos que resultam na radicalização das pessoas por meio de discursos de ódio, o Wall Street Journal faz um teste. Uma de suas estagiárias cria um perfil falso que curte, comenta e reposta publicações extremistas. Em pouco tempo, ela recebe convites para participar de grupos radicais.
Mikey Madison, desta vez, surpreende e prova (mais do que em Anora, que lhe rendeu um Oscar) que é uma ótima atriz. Em um papel mais contido, ela consegue externar a coragem e a angústia de sua personagem. A conversa a sós com a responsável por media relations do Wall Street Journal (vivida por Betty Gilpin) representa um dos belos momentos de sua atuação, pois Aaron Sorkin escolhe não mostrar o conteúdo da conversa para o espectador. Fica tudo subentendido nas expressões das atrizes.
O arco da personagem, aliás, é muito bem construído. Frances sempre foi solitária, mais à vontade com os códigos de programação do que com pessoas. Em certo momento, ela confessa que nunca se sentiu feliz na vida. Então, depois de brilhar em seu depoimento no processo no Senado, ela emociona o espectador com sua manifestação de triunfo por meio de um simples gesto e um semblante de alegria.
Aaron Sorkin tem uma queda por heróis sociais, vide Os 7 de Chicago (2020). Em O Outro Lado das Redes, ele enaltece Frances Haugen — uma trabalhadora anônima a quem o filme chama de disruptiva para depois cortar para a invasão do Capitólio em Washington, D.C., reforçando o quanto atitudes corajosas como a sua são importantes.
O Outro Lado das Redes está na programação da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.
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Ficha técnica:
O Outro Lado das Redes | The Social Reckoning | 2026 | 120 min. | Estados Unidos | Direção: Aaron Sorkin | Roteiro: Aaron Sorkin | Elenco: Jeremy Strong, Mikey Madison, Jeremy Allen White, Bill Burr, Betty Gilpin, Wunmi Mosaku.
Distribuição: Sony Pictures.



