Dentre as séries da franquia Star Wars produzidas pela Disney, The Mandalorian é a que mais agradou aos fãs. Por isso, é a única que chegou à terceira temporada, exibida em 2023. Nas duas primeiras, sua narrativa é majoritariamente procedural. Ou seja, em cada episódio, o caçador de recompensas mandaloriano interpretado por Pedro Pascal executa um trabalho para o qual é contratado. Como linha central, o enredo acompanha a evolução do relacionamento com Grogu (apelidado pelos fãs de Baby Yoda em suas primeiras aparições), conexão que gradativamente humaniza mais o protagonista, diferenciando-os, assim, dos outros mercenários.
Essa estrutura se esgotou nas duas primeiras temporadas, assim como as fortes referências ao gênero faroeste. Por esse motivo, a terceira temporada trouxe novidades. Entraram novos personagens mandalorianos, a narrativa se desenvolveu num arco contínuo entre os episódios, o faroeste deu lugar à fantasia espacial. Na conclusão dessa aventura, surgiu o gancho para o filme Star Wars: O Mandaloriano e Grogu, que chega esta semana nos cinemas.
Desde Star Wars: A Ascensão Skywalker (2019) a franquia não lançava nada nos cinemas. Então, talvez para aquecer o público para o aguardado Star Wars: Starfighter, dirigido por Shawn Levy e estrelado por Ryan Gosling, com estreia prevista para maio de 2027, a Disney produz este longa metragem sobre o Mandaloriano Din Djarin e seu filho adotado Din Grogu. Esse planejamento faz sentido principalmente para atrair às salas de cinema aqueles fãs mais jovens que conheceram esse universo a partir do streaming.
Feito para a tela grande
E, de fato, Star Wars: O Mandaloriano e Grogu serve apenas como aquecimento. Certamente representa um upgrade em relação à produção seriada, em particular porque evita carregar demais nos efeitos gerados em computação gráfica. Que é um recurso que os fãs aceitam numa série, mas não no cinema. Ciente disso, o esperto diretor Jon Favreau não repete o erro que o próprio George Lucas cometeu ao filmar a trilogia inicial da saga (lançada entre 1999 e 2005). Lucas, o criador de Star Wars, se entusiasmou demais com as novas possibilidades tecnológicas e exagerou na dose, eliminando o charme dos efeitos práticos do primeiro filme da franquia de 1977 e de suas duas sequências.
As primeiras cenas de Star Wars: O Mandaloriano e Grogu representam um aceno aos fãs nostálgicos. Como na abertura de O Império Contra-Ataca (1980), acontece uma grandiosa batalha na neve envolvendo os icônicos andadores AT-AT. E, com o capricho de usar o stop-motion para movimentá-los, assim como no veículo montado por Din Djarin que remete aos Tauntauns do planeta congelado Hoth.
Além disso, o filme resgata também o emprego de marionetes. O Grogu já usa esse recurso na série, mas aqui ele está com mais movimentos, principalmente ao caminhar movimentando as pernas. Aqueles pequenos seres que trabalham como mecânicos, os Anzellanos, são claramente bonecos – e propositalmente engraçados, lembrando os Minions. Há também animatrônicos na feitura da gigantesca cobra-dragão e nas variadas criaturas que combatem na arena de lutas, alguns deles remetendo aos monstros holográficos do jogo de xadrez de Star Wars: Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977).
Nostalgia
Outra característica vintage que o filme resgata está na utilização de miniaturas de naves espaciais. Ao invés de simplesmente gerar essas cenas no computador, aqui se reproduzem os efeitos disponíveis no final dos anos 70 e início dos 80, mesmo que isso não fosse mais necessário. O anterior fracasso de George Lucas parece ter demonstrado que esse cuidado em privilegiar a percepção que o espectador guarda dos primeiros filmes é crucial para qualquer produção da franquia voltada aos cinemas.
Como se trata de um filme solo, que retoma a trajetória do Mandaloriano a partir do momento em que termina a história da terceira temporada da série, não tinha como o roteiro não ser procedural. É provável que a quarta temporada venha a dar continuidade à linha narrativa Djarin/Grogu, mas seria frustrante para o espectador que não segue a série assistir no cinema a uma trama que só se concluísse no streaming. Tendo isso em conta, o longa-metragem acompanha uma nova missão do protagonista mercenário.
Ao contrário dos outros mandalorianos que apareceram nos filmes da franquia (Boba Fett e Jango Fett), Din Djarin está do lado dos mocinhos, pois quem o contrata é a Nova República. Através da Coronel Ward (Sigourney Weaver), o caçador de recompensas recebe a incumbência de caçar e capturar fugitivos e senhores da guerra imperiais. Depois de cumprir uma missão no planeta gelado na sequência de abertura, o Mandaloriano deve resgatar Rotta, o Hutt – o filho do falecido Jabba. No fundo, é uma troca de favores entre os rebeldes e os irmãos gêmeos de Jabba, que assumiram o seu lugar.
Muita ação
O filme possui um tom sombrio, pois se passa na maior parte em planetas com essa característica. Em Shakari, numa cidade corroída pelo crime (com visual dark que se inspira em Blade Runner), o Mandolariano arranca pistas de um apavorado dono de uma barraca de comidas (voz de Martin Scorsese). E encontra Rotta, agora um lutador de arena de apostas, palco de uma batalha com diversas criaturas vorazes. Muitas cenas acontecem em Nal Hutta, o planeta natal dos Hutts que possui uma paisagem pantanosa (que dá margem à conexão de Grogu com a natureza, tal qual Yoda).
As muitas cenas de ação não empolgam tanto quanto deveriam. Elas não resolvem a dificuldade de apresentarem combates com criaturas de diversos tamanhos, geralmente animatrônicos, o que envolve uma complicada questão entre viabilidade técnica, credibilidade na mescla dos bonecos e CGI com pessoas, coreografias de luta. Em alguns momentos, os movimentos parecem lentos demais (os Hutts lutando entre si), em outros, tão rápidos e filmados em planos fechados demais que fica difícil entender o que está acontecendo.
Porém, o filme sofre mais com obstáculos que também prejudicam a série: os próprios personagens.
Os personagens
O Mandaloriano, como sua denominação mais conhecida indica, não consegue ser devidamente individualizado para criar a empatia do espectador. O protagonista vivido por Pedro Pascal é chamado pelo nome da seita a que pertence, e não por seu nome, Din Djarin. Além disso, segundo o código mandaloriano, ele nunca pode tirar o capacete perante outras criaturas, o que afeta ainda mais a sua impessoalidade. No filme, ele só mostra o seu rosto em um trecho da cena no fosso dos Hutts. Aliás, até que ponto adianta colocar um ator conhecido se só vamos ouvir a sua voz? Isso até leva algumas pessoas a duvidarem se é mesmo Pedro Pascal quem está sob o capacete todo o tempo, principalmente na série. Pelo menos, neste filme não acontece nenhuma reunião de mandalorianos mascarados, como na série, o que dificulta até identificarmos quem é quem.
Quando a Grogu, a complicação está no fato de ele ser um bebê. Para começar, ele não fala. Na terceira temporada, o colocam numa armadura para apertar os botões “sim” e “não”, uma solução mequetrefe para esse problema. No filme, ele não fala, apenas emite grunhidos. Desde sua primeira aparição na série, ele está se desenvolvendo, usando cada vez mais a Força, mas seria bom dar uma acelerada nesse crescimento para que esse personagem empolgue mais do que os momentos fofos, presentes também no filme – como teria que ser.
Para os fãs da série, Star Wars: O Mandaloriano e Grogu representa uma versão anabolizada de um episódio procedural. Já para os antigos fãs dos filmes, salva-se apenas um gostinho de nostalgia calculadamente plantado. Porém, embora este longa seja uma grande produção de respeito, o que todos estão ansiosos por ver mesmo é o filme de 2027.
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Ficha técnica:
Star Wars: O Mandaloriano e Grogu | Star Wars: The Mandalorian and Grogu | 2026 | Estados Unidos | Direção: Jon Favreau | Roteiro: Jon Favreau, Dave Filoni | Elenco: Pedro Pascal, Sigourney Weaver, Jeremy Allen White, Jonny Coyne, Martin Scorsese.
Distribuição: Walt Disney Studios.






