O filme Verity (palavra inglesa que significa veracidade) é uma adaptação do livro homônimo de Colleen Hoover lançado em 2018. Por isso, causa espanto que sua trama careça da fluidez de um best-seller. Muito se perdeu nessa transposição. A culpa não deve ser do diretor Michael Showalter, que assina pelo menos três filmes bons: Doris, Redescobrindo o Amor (2015), Doentes de Amor (2017) e Uma Ideia de Você (2024) — este último estrelado por Anne Hathaway, uma das protagonistas do longa desta crítica.
O ponto fraco do time de talentos nesta produção é o roteirista Nick Antosca, experiente showrunner de séries (sua mais recente é Cabo do Medo, feita para a Apple TV neste ano), mas que só escreveu três roteiros de longas, todos fracos filmes de terror B. Provavelmente por causa dele, Verity recorre a muitos jump scares, incluindo aqueles sustos falsos tão presentes nesse gênero. Mais problemáticos ainda são os diálogos, que soam truncados demais. Por causa deles, o romance nunca convence. Até os momentos que deveriam ser sensuais soam um tanto ridículos — principalmente nas cenas com Dakota Johnson que, coitada, recebeu as piores falas do longa. Algumas delas chegam a provocar risos não intencionais na plateia.
Segredos sombrios em manuscritos secretos
O enredo acompanha Lowen Ashleigh (Dakota Johnson), uma escritora de romances sem sucesso que recebe a proposta de atuar como ghost-writer de Verity Crawford (Anne Hathaway), uma famosa autora de best-sellers que sofreu um acidente e está em estado catatônico. Segundo Jeremy (Josh Hartnett), marido de Verity, esse seria o desejo da esposa. Para coletar o material previamente pesquisado, Lowen se hospeda na residência dos Crawford, onde acaba encontrando uma autobiografia secreta que revela o lado sombrio dessa família.
A leitura desse relato autobiográfico proporciona a melhor parte do filme. O flashback que conta como surgiu o relacionamento entre Verity e Jeremy permite que Anne Hathaway marque sua presença no longa. Caso contrário, ela ficaria o tempo todo paralisada na cama devido ao seu estado pós-acidente. Assim, abre-se espaço para cenas românticas e sensuais (prejudicadas por alguns exageros), até entrar em uma mudança drástica para o sombrio — anunciada no texto em um gatilho comum nesse tipo de literatura.
A virada acontece a partir do nascimento dos filhos gêmeos, pois Verity não lida bem com a maternidade. A autobiografia se aproxima de uma confissão, e a questão que o espectador levanta é: o quão macabra se tornará essa história? Antes mesmo de chegar ao fundo desse abismo, Lowen decide que Verity não merece seu respeito e, portanto, ela pode sim iniciar um caso com Jeremy.
A mão de Showalter
Deste ponto em diante, o filme degringola. As cenas de amor caem em uma pieguice sem tamanho. Não apenas as falas, mas as situações em si parecem falsas. Tanto Josh Hartnett quanto Dakota Johnson não conseguem demonstrar que se desejam em cena. E Dakota ainda tem uma infeliz linha em que sua personagem comenta sobre a própria falta de expressão. O diretor Michael Showalter consegue piorar ainda mais o clima quando, em um restaurante alemão que deveria servir de cenário para um encontro romântico, o casal tira sarro do uniforme dos garçons. Entra, então, um plano nada sutil exibindo as roupas típicas que eles usam, aniquilando qualquer indício de sensualidade na cena.
Showalter se destaca, pelo menos, nos dois planos de depoimentos para a polícia — primeiro com Verity e Jeremy e, depois, deste último com Lowen —, destacando a nova situação que se formou. O destaque fica para o uso do primeiro plano e da profundidade de campo nesses trechos, essencial para a narrativa, pois evidencia a cumplicidade entre as duas variações de casais.
Falha na adaptação
O roteiro possui inúmeras inconsistências, como a decisão de jogar um corpo no lago, quando seria mais fácil convencer a polícia de que a pessoa faleceu na cama. Nem mesmo o gancho principal, que coloca a narrativa em andamento, funciona. Imagine o marido de uma escritora de sucesso que, após o acidente da esposa, decide contratar uma ghost-writer para continuar faturando com novos lançamentos. É uma atitude de um mau-caratismo sem tamanho, mesmo que ele acreditasse que fosse justo. Sem contar que essa mentira não se sustentaria por muito tempo. Mas, sendo esta uma crítica de cinema, não pretendo esmiuçar o roteiro. Até porque, provavelmente, o livro não sofre com esses problemas, que devem ter surgido na adaptação. Então, neste caso é bom evitar spoilers porque eles são a única arma do filme. O suspense e a sensualidade, se funcionavam nas páginas, simplesmente sumiram na tela.
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Ficha técnica:
Verity | Verity | 2026 | 114 min. | Estados Unidos | Direção: Michael Showalter | Roteiro: Nick Antosca (baseado no romance de Colleen Hoover) | Elenco: Anne Hathaway, Dakota Johnson, Josh Hartnett, Ismael Cruz Córdova, Irina Dvorovenko, Michael Abbott Jr., Brady Wagner.
Distribuição: Sony Pictures.



