A 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo já começa a revelar alguns dos filmes de sua programação, que devem chamar a atenção dos cinéfilos brasileiros. A seleção reúne produções que passaram pelo Festival de Cannes, incluindo trabalhos premiados em diferentes seções do evento francês.
Entre as novidades está Minotaur, de Andrey Zvyagintsev, vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes. Exilado na França, o diretor russo é conhecido por filmes como O Retorno, Elena, Leviatã e Sem Amor, todos marcados por conflitos familiares e tensões sociais e políticas.
Em Minotaur, Gleb é um executivo bem-sucedido que tenta manter sob controle uma vida cuidadosamente organizada. Mas as crescentes pressões no trabalho e a instabilidade ao seu redor fazem esse equilíbrio desmoronar. Ambientado na Rússia de 2022, o filme acompanha a escalada dessa crise até a violência.
Outro destaque é The Samurai and the Prisoner, novo longa do japonês Kiyoshi Kurosawa, exibido na seção Première de Cannes. O diretor de Cure e Pulse já é um velho conhecido da Mostra, onde seus filmes Sonata de Tóquio, Para o Outro Lado e O Segredo da Câmara Escura foram apresentados.
Desta vez, Kurosawa mergulha em uma trama ambientada no Japão feudal. Depois de se rebelar contra o tirânico Nobunaga Oda, o lorde Murashige Araki fica cercado dentro de seu próprio castelo. Enquanto crimes misteriosos aumentam a desconfiança entre os moradores da fortaleza e o exército inimigo se aproxima, ele precisa recorrer a uma solução inesperada: formar uma aliança com Kanbei Kuroda, um estrategista brilhante que está preso no local.
A seleção também traz Everytime, da austríaca Sandra Wollner, vencedor da mostra Um Certo Olhar em Cannes. A diretora já havia participado da Mostra com The Trouble with Being Born, exibido na 44ª edição.
O novo filme começa com uma tragédia. Na noite anterior a uma viagem de férias, Jessie sai escondida para uma festa com o namorado, Lux. Os dois sobem a um prédio para assistir ao nascer do sol, mas Jessie acaba caindo e morre. Um ano depois, sua mãe Ella e a irmã mais nova, Melli, tentam seguir em frente. A situação muda quando Lux reaparece. Incapaz de admitir que o culpa pela morte da filha, Ella decide levá-lo, junto com Melli, para Tenerife, destino da viagem que nunca aconteceu. Sob o sol das férias, passado e presente começam a se confundir.
Entre os documentários está Rehearsals for a Revolution, primeiro longa-metragem documental da iraniana Pegah Ahangarani, que atualmente vive em Londres. O filme recebeu o Olho de Ouro de melhor documentário em Cannes.
A cineasta parte de cinco retratos de familiares e mentores para reconstruir sua própria história e, ao mesmo tempo, a trajetória recente do Irã. Para isso, combina arquivos pessoais, vídeos caseiros, imagens de manifestações, jornais e registros de voz. O resultado percorre mais de quatro décadas, da Revolução de 1979 à guerra deflagrada em 2026, relacionando memórias individuais à repressão política e à esperança de transformação.
Já Clarissa, dos irmãos nigerianos Arie e Chuko Esiri, foi exibido na Quinzena de Cineastas de Cannes. Os dois diretores já passaram pela Mostra com Eyimofe, que recebeu o Prêmio do Júri de Melhor Filme de Ficção na 44ª edição.
Ambientado em Lagos, o filme acompanha a socialite Clarissa durante uma recepção em sua casa. O reencontro com antigos amigos faz antigas histórias voltarem à tona, incluindo paixões, desejos reprimidos, relações complicadas e sonhos que ficaram pelo caminho. O elenco reúne Sophie Okonedo, Ayo Edebiri, David Oyelowo e India Amarteifio.
Mais filmes de Cannes na 50ª Mostra
Esses cinco títulos se juntam a três produções de Cannes anunciadas anteriormente.
Uma delas é Tigre de Papel, de James Gray, exibido na competição do festival francês. O diretor de Caminho Sem Volta, Os Donos da Noite, Amantes, Era Uma Vez em Nova York e Armageddon Time volta a abordar relações familiares em uma história envolvendo dois irmãos.
Irwin Pearl é um engenheiro que construiu uma família com Hester, enquanto seu irmão Gary seguiu carreira na polícia. Quando Gary apresenta uma oportunidade de negócio que parece boa demais para ser verdade, os dois acabam entrando no perigoso mundo da máfia russa. O envolvimento coloca em risco a relação entre os irmãos e muda suas vidas.
Além de apresentar Tigre de Papel pessoalmente na abertura e assinar a arte do pôster desta edição histórica da Mostra, Gray recebe o Prêmio Leon Cakoff e participa de sessão dupla de filme e conversa com o cineasta brasileiro Walter Salles no dia 15 de outubro, na Sala Petrobras na Mostra, no Solar Fábio Prado, administrado pela Fundação Padre Anchieta.
Também está confirmado A Terra do Meu Pai, de Pawel Pawlikowski, vencedor do prêmio de direção em Cannes. O cineasta polonês é responsável por Ida, vencedor do Oscar de filme estrangeiro, e Guerra Fria, além de já ter participado da Mostra com Meu Amor de Verão e o próprio Guerra Fria.
O novo longa se passa em 1949, no auge da Guerra Fria. O escritor Thomas Mann, vencedor do Nobel de Literatura, e sua filha Erika embarcam em uma viagem de carro pelas ruínas da Alemanha. Depois de 16 anos vivendo no exílio nos Estados Unidos, Mann retorna a um país dividido entre as áreas de ocupação americana e soviética. A viagem acaba colocando o escritor diante das marcas deixadas pela guerra e das feridas de sua própria família.
Por fim, All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi, chega à 50ª Mostra depois de passar por Cannes, onde Virginie Efira e Tao Okamoto receberam o prêmio de melhor atriz. O diretor japonês ganhou projeção internacional com Roda do Destino e Drive My Car, vencedor do Oscar de filme estrangeiro.
A trama acompanha Marie-Lou, diretora de uma instituição de longa permanência para idosos que tenta implantar uma nova forma de cuidado, baseada na escuta e no respeito aos residentes. Sua vida muda quando conhece Mari, uma diretora de teatro japonesa que enfrenta um câncer. A amizade entre as duas acaba se transformando em uma parceria para enfrentar aquilo que parece impossível.
Com os anúncios já realizados, a 50ª Mostra reúne uma seleção de nomes importantes do cinema contemporâneo e uma série de filmes que chegam a São Paulo depois de passagens de destaque por Cannes. A programação, porém, ainda não está completa e novos títulos devem ser anunciados.