O cineasta brasileiro José Eduardo Belmonte é um velho conhecido do grande público brasileiro. Ele assinou a direção de Alemão (2014) e sua sequência de 2022, Entre Idas e Vindas (2016) e Uma Família Feliz (2023), entre outros. Em seu novo filme, Quase Deserto, embarca numa coprodução Brasil e Estados Unidos, rodada exclusivamente em Detroit, com atores brasileiros e internacionais.
A história se passa após a pandemia, quando a crise se aprofunda ainda mais na antiga capital da indústria automobilística. Indústrias abandonadas se transformaram em ruínas, e os trabalhadores que moravam na cidade se mudaram em busca de trabalho. Especuladores imobiliários compram essas propriedades por uma ninharia e expulsam os inquilinos que insistem em viver ali.
O filme começa com um flash forward equivocado. Uma cena de ação, na qual dois homens perseguem outros dois e uma moça. O espectador não sabe ainda quem são essas pessoas, então não tem motivos para torcer pelos perseguidos. De qualquer forma, é uma sequência mal filmada, que não provoca nenhuma tensão, principalmente porque, pela má montagem das cenas paralelas, não dá para saber a distância entre os dois grupos, que parece variar sem motivos. A gota d´água é os perseguidores descobrirem que os outros pularam uma cerca ao observar as pegadas deles. Como assim, pegadas no chão de concreto? Ou talvez nem seja isso, porque não há nenhum plano das pegadas para confirmar essa presunção. Enfim, o flash forward nem termina num cliffhanger (aquele momento de vida ou morte para os protagonistas), que deixaria o público ávido por descobrir o que levou a esse resultado.
Os protagonistas
Entra, então, o título do filme, em três idiomas: português, inglês, espanhol. O protagonista argentino, Benjamín (Daniel Hendler) abre o primeiro segmento como o narrador. E explica sobre a falência de Detroit e um pouco sobre sua vida. O segundo segmento apresenta o personagem brasileiro, Luís (Vinícius de Oliveira). Imigrante ilegal, ele tenta simular um casamento com Milena (Alessandra Negrini), para conseguir um visto de permanência. Mas, o esquema não dá certo.
Benjamín e Luís flagram aqueles dois perseguidores do início do filme matando um homem, no apartamento onde está Ava (Angela Sarafyan), que completa os personagens do flash forward. O filme a apresenta Ava como a “garota boba”, por conta de suas particularidades mentais. Hipersensível, ela sempre usa um fone de ouvidos para se isolar e nem sempre consegue se comunicar. Acreditando que ela precisa de ajuda, Benjamín e Luis a levam com eles. Circunstâncias separam o brasileiro dos outros dois. Por ser um jornalista investigativo em fuga, o argentino se sente impelido a desvendar o assassinato que testemunhou. Já o brasileiro, encurralado pelos perseguidores, é forçado a procurar a garota. Mas, a narrativa fica frouxa, e os eventos se transformam numa correria desembestada e sem objetivo.
Um filme sem pátria
Outros personagens secundários entram no enredo. E, quase sempre, eles se apresentam contando a história deles, seja ela relevante ou não para a narrativa. Usam até flashbacks para isso, deixando o ritmo do filme ainda mais lento. Atores americanos fracos tornam as situações mais artificiais do que a revelação de quem está, de fato, do lado bom e do lado ruim. A direção não consegue direcionar o olhar do espectador para os detalhes narrativos, e a trama fica mais confusa do que precisava ser. Ainda por cima, músicas erradas não combinam com o tom das cenas. Um dos últimos trechos consegue, finalmente, desenrolar a narrativa. Mas, já é tarde demais, e tudo acaba numa incômoda conclusão musical derivada de Bollywood.
Na ânsia de fabricar um produto para os gringos verem, os realizadores de Quase Deserto fizeram um filme sem pátria. Mal dirigido, sua narrativa se perde e não alcança nem latinos nem americanos.
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Ficha técnica:
Quase Deserto | 2025 | 106 min. | Brasil, EUA | Direção: José Eduardo Belmonte | Roteiro: Pablo Stoll, José Eduardo Belmonte, Carlos Marcelo | Elenco: Angela Sarafyan, Vinícius de Oliveira, Daniel Hendler, Alessandra Negrini, Deborah Chenault-Green, Thais Gulin, Maria Virgínia Lombardo.
Distribuição: Pandora Filmes.



