Filmes da 50ª Mostra SP: vistos e com cotações

Desde o dia 3 de outubro, quando aconteceu a coletiva de imprensa da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, jornalistas e críticos puderam assistir a parte dos filmes selecionados para essa edição comemorativa. Essas sessões exclusivas, chamadas de cabines de imprensa, acontecem geralmente com dois filmes a partir das 9h20, todos os dias até 23 de outubro.

Assim, apresento aqui os filmes que eu pude assistir, com um breve comentário e uma cotação (notas de 0 a 5). Sobre alguns deles, escrevi um texto crítico, cujos links estão aqui apontados. Talvez sirva como um guia do que ver (ou não ver) na Mostra.

Esta é uma página dinâmica, que será atualizada conforme os filmes que eu assistir na Mostra.

Lista dos filmes vistos (em ordem alfabética)

A Cor do Sol (Teida nu iro / The Color of the Sun), de Xavier Tera. Um filme sobre amadurecimento que quebra as expectativas, tanto narrativas quando formais. Leia a crítica. Nota: 4.

A Ginasta (The Gymnast), de Charlotte Glynn. Ótimas atuações que valorizam os personagens não estereotipados e uma reconstituição de época na medida que não chama a atenção para a nostalgia. Um melodrama B de respeito. Leia a crítica. Nota: 3,5.

A História do Concreto (The History of Concrete), de John Wilson. O diretor repete o que fazia em sua série: longe de apresentar a história do concreto, seu objetivo é exteriorizar seu olhar crítico sobre o cotidiano. Leia a crítica. Nota: 3,5.

A Morte Não Tem Dono (La Muerte no Tiene Dueño), de Jorge Thielen Armand. Um suspense venezuelano que beira o terror. A música sinistra e a fotografia intencionalmente feia incremente o inescapável ambiente violento. Mas, quando a protagonista (Asia Argento) se afasta do lugar do conflito, o filme perde toda a sua intensidade e fica muito chato até melhorar na parte final. Leia a crítica. Nota: 3.

A Providência e a Guitarra, de João Nicolau. Um filme em defesa da arte que tem uma narrativa tão encantadora que por si só serve de argumento. Leia a crítica. Nota: 8.

A Terra do Meu Pai (Fatherland), de Pawel Pawlikowski. O diretor polonês mantém algumas características que me encantaram em seus filmes Ida (2013) e Guerra Fria (2018), em especial a fotografia em preto e branco de Lukasz Zal, os enquadramentos caprichados que privilegiam a arquitetura das locações e o predomínio da câmera fixa. Mas, desta vez evita a sua maior ousadia: o quadro com os personagens achatados na parte inferior da tela, deixando um espaço estranhamente grande acima (chega perto disso apenas na cena de abertura, com Klaus Mann). O enredo, que acompanha a última turnê do escritor Thomas Mann na Alemanha, cria uma simbiose mais tênue com a forma. Leia a crítica. Nota: 3,5.

A Vida e as Mortes de Wilson Shedd (The Life and Deaths of Wilson Shedd), de Tim Blake Nelson. Baseado em eventos reais, esse filme demonstra que o diretor filma bem, buscando soluções esteticamente belas e funcionais, além de quebrar a ordem cronológica dos acontecimentos, para assim extrair emoção nesse romance entre uma mulher e um detento. Nota: 6.

A Violência de Ninguém (Violence du Corps de l’Autre), de Denis Côté. O cineasta canadense volta a trabalhar com a atriz Larissa Corriveau. Aqui, ela administra um remédio que causa a morte de quem a contrata para se suicidar. Geralmente, são pessoas com doença terminal, mas às vezes precisa enfrentar parentes que não concordam com essa solução. O filme, para combinar com esse trema, possui uma fotografia escura e muito granulada. Os cenários são gelados e úmidos. Flashes esmaecidos evocam o que passa pela mente da pessoa antes de ela morrer. A trama patina no meio do filme, entrando em digressões (a longa reunião dos amigos do chefe da protagonista) extenuantes. Leia a crítica. Nota: 2.

Blocos Erráticos (Bloques Erráticos), de Thomas Woodroffe. Mistura ficção, documentário (ou mockumentário), cinema experimental, mas acerta mesmo ao mostrar trechos do filme documental de 1925. Nota: 2.

Camuflagem (Camouflage), de Mykyta Gibalenko. Revela a situação distinta de um imigrante ucraniano (que sai do país antes dos ataques russos) e seus familiares exilados. As transições bem pensadas que o filme apresenta não são suficientes para contornar a sensação de que os conflitos poderiam ser resolvidos com uma simples conversa. Leia a crítica. Nota; 2,5.

Chicas Tristes, de Fernanda Tovar. Essa produção mexicana prova que é possível filmar com naturalismo e controle. As conversas das duas protagonistas soam muito autênticas, mas o planejamento formal não passa desapercebido, principalmente nas cenas dentro da água. Quanto à narrativa, a opção pela perspectiva da amiga da vítima permite um olhar diferenciado sobre o tema. Leia a crítica. Nota: 3,5.

Clarice Vê Estrelas, de Letícia Pires. Produção infantil caprichada que usa o ambiente circense como universo facilitador de soluções de relacionamentos em atrito. Mas, funcionaria bem melhor se a personagem que embarca nessa jornada fosse aquela que de fato tem um problema. Nota: 3.

Cronovisor, de Jack Auen e Kevin Walker. As cenas escuras acompanhadas de uma trilha musical sombria criam a atmosfera lúgubre de uma pesquisa sobre uma máquina capaz de trazer imagens do passado. Feito com orçamento pequeno, o filme se concentra em enfileirar livros, revistas e outros materiais, instigando o espectador a ver o registro de um momento histórico. É como misturar David Cronenberg com filme de found footage. Leia a crítica. Nota: 3.

Dust, de Tsai Ming-liang. Quando alguém tipifica filme da Mostra, até por brincadeira, escolhe como exemplo uma obra como essa, que mostra um monge caminhando lentamente, inabalável ao que acontece ao seu redor. Sem diálogos, nem falas, e só com sons diegéticos, consegue ainda assim ser ruidoso. Leia a crítica. Nota: 3.

Furies, de Rami Kodeih. Um heist movie com bastante ação. Filmado como uma produção americana, mas sem o glamour, resultando em uma percepção mais visceral e realista. Nota: 3.

Glaxo, de Benjamín Naishtat. O mal que contamina os mais fracos e leva a atos covardes e imperdoáveis. Nesse filme, as memórias do passado explicam, mas não justificam. Leia a crítica. Nota: 3,5.

Ha-Chan: De Volta À Dança!, de Josef Kubota Wladyka. Um musical com muitos bons momentos (as danças latinas da protagonista japonesa com seu marido mexicano, o fantasma dele em forma de pássaro) e outros menos inspirados (o ciúme infantil dela e números musicais poucos elaborados). Leia a crítica. Nota: 3,5.

Homem ao Mar (Hombre al Água), de Gael García Bernal. Formalmente bem filmado, com muito uso de molduras dentro do quadro, espelhos e movimentos de câmera. Mas, a narrativa é confusa e o humor tão sutil que parece não intencional. Leia a crítica. Nota: 2,5.

I Love Boosters, de Boots Riley. Começa com sacadas hilariantes, com piadas verbais e visuais criativas que remetem ao humor de Frank Tashlin nas décadas de 1950 e 1960. Mas exagera, passa do limite dos absurdos e cai em modernices no estilo de Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo. Nota 6.

Lorca: A Voz Partida (Lorca: La Voz Quebrada), de Manuel Menchón. Um documentário que usa criativamente os materiais e as informações que possui. Leia a crítica. Nota: 4.

Lua Cheia (Full Moon), de Jeong Ji-hye. Sua proposta naturalista e sem truques apelativos eventualmente emociona, como na cena da dança, mas o que vem a seguir parece não fazer mais a narrativa se mover. Leia a crítica. Nota: 3.

Minotauro (Minotaur), de Andrey Zvyagintsev. Após um longo e denso desenvolvimento da situação atual, o filme entra num sufocante suspense hitchcockiano sustentado por imagens, com o detalhe adicional da crítica à impunibilidade dos poderosos. Leia a crítica. Nota: 4,5.

Musk, de Alex Gibney. Um documentário abrangente que revela a autoproclamada genialidade visionária do trilionário Elon Musk contrapondo-a com o que pode ser somente uma ilusão delirante. Alguns trechos repetitivos poderiam ter sido eliminados, o que evitaria suas cansativas quatro horas de duração (com direito a intervalo de 10 minutos). As cenas com imagens realistas do retratado criadas em IA não deveriam estar no filme. Leia a crítica. Nota: 3.

O Homem Mais Solitário da Cidade (The Loneliest Man in Town), de Tizza Covi e Rainer Frimmel. É ficção, mas tem um certo estilo documental. O protagonista, um resistente solitário às mudanças da vida é um achado. Leia a crítica. Nota 3,5.

O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning), de Aaron Sorkin. Apropriadamente muito mais crítico que o filme de David Fincher, pois Zuckerberg e seu Facebook se tornaram muito mais perigosos. Leia a crítica. Nota: 4.

O Retornado (El Regresado), de Armando Capó. Em 2001, um jovem artista cubano retorna à sua cidade natal e enfrenta a censura criativa do governo. Faltou carisma aos personagens, mas prende a atenção o suficiente. Leia a crítica. Nota: 3.

O Samurai e o Prisioneiro (Kokurojo), de Kiyoshi Kurosawa. O primeiro jidai geki do diretor se passa majoritariamente em pequenos ambientes, ao contrário dos épicos clássicos japoneses. A trama complexa gira em torno de um mistério, mas o mais importante na narrativa são as estratégias de guerra. Um dos personagens mais ricos lembra o manipulador de mentes de A Cura (1997). Nota: 4.

Onde Repousar Meus Olhos (Nun Dul Dega Eomne / Nowhere to Lay my Eyes), de Hong Sang-soo. Mantém o padrão, inclusive de qualidade, da obra do diretor. Como de costume, trata de relacionamentos familiares, escalando atores recorrentes em longas conversas, principalmente durante as refeições. Leia a crítica. Nota: 3,5.

Retorno a Buenos Aires (Ritorno a Buenos Aires), de Marco Bechis. Nunca é demais filmar uma nova história sobre os terrores da ditadura para que eles não se repitam. Desta vez, o recorte cai em um sobrevivente que decide enfrentar as dores de seu passado para testemunhar contra os seus algozes. Nota: 3,5.

Silvestre (1981), de João César Monteiro. O filme recorre a ideias deliciosamente inventivas para contar uma saga histórica cheia de reviravoltas. Uma das obras primas da mostra em homenagem ao produtor Paulo Branco. Nota: 5.

Tigre de Papel (Paper Tiger), de James Gray. O diertor atinge a sua excelência neste filme que agrega elementos marcantes de seu cinema autoral: a família como centro da trama, Nova York, ambientação de época, máfia russa, melodrama e excelentes atuações. Leia a crítica. Nota: 5.

Um Dia na Vida de Jo: Capítulo Fedra (Mia Mera sti Zoi tis Tzo: Kefalaio Faidra), de Jacqueline Lentzou. A narrativa fragmentada de eventos independentes que se cruzam em algum momento lembra Crash: No Limite, de Paul Haggis, ganha um toque que parece experimental e se revela espiritual. Nota: 3.

Um Pouco de Esperança (Kami Nour / A Bit of Light), de Ali Asgari. O uso narrativo da elipse, do espaço fora do quadro, eleva a qualidade deste filme menos inspirado do diretor. Leia a crítica. Nota: 3,5.

Uma Família (A Family), de Mees Peijnenburg. Essa produção holandesa abusa da manipulação do espectador. A incomunicabilidade das crianças, que esconde do público a percepção delas em relação ao divórcio conflituoso dos pais, é tão exagerada que deixa a impressão de que o filho mais novo é mudo. Nota: 2,5.

Variações sobre um Tema (Variasies op’n Tema), de Jason Jacobs e Devon Delmar. Adotando uma narrativa em espiral, o filme sempre volta às mesmas situações, com os mesmos personagens de uma comunidade pobre sul-africana, nos mesmos lugares. A câmera permanece fixa, capturando o que está à sua frente, como em um documentário filmado às escondidas. Só não se configura assim porque as pessoas estão próximas demais da lente. Leia a crítica. Nota: 3.

Você Não Vai Acreditar Quem Morreu (You’ll Never Believe Who’s Dead), de Dallan Shovlin. Produção irlandesa que busca o humor das comédias frenética, mas que nunca alcança a voltagem necessária para ser engraçada. Leia a crítica. Nota: 2.

Veja essa lista ranqueada no Letterboxd: https://letterboxd.com/eduardokaneco/list/50-mostra-internacional-de-cinema-em-sao/

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